Faixa-preta formado por Hélio Soneca e representante da Gracie Barra na Espanha, Cristiano Neguinho conquistou quatro medalhas no Mundial disputado em Tóquio. Professor superou problemas de saúde antes da competição e realizou uma promessa feita ao pai, falecido há aproximadamente um ano.
O curitibano Luis Cristiano Ribas da Motta, conhecido no mundo do Jiu-Jitsu como Cristiano Neguinho, viveu um dos momentos mais marcantes de sua trajetória esportiva. Aos 51 anos, o faixa-preta brasileiro conquistou três títulos mundiais e uma medalha de bronze durante um Campeonato Mundial de Jiu-Jitsu realizado em Tóquio, no Japão, em 2026.
Representando a Gracie Barra Vila-Seca, da Espanha, onde atualmente mora e trabalha como professor, Cristiano demonstrou experiência e eficiência para alcançar resultados expressivos nas disputas com e sem kimono.
Na modalidade Gi (com kimono), o brasileiro conquistou duas medalhas de ouro, tornando-se campeão mundial na categoria até 88 kg e também no absoluto, divisão que reúne competidores de diferentes categorias de peso.
Já no NoGi (sem kimono), Cristiano voltou ao lugar mais alto do pódio ao conquistar o título de sua categoria de peso. No absoluto, garantiu a medalha de bronze, encerrando sua participação com quatro pódios.
Segundo o próprio atleta, foram dez combates disputados, com nove vitórias por finalização e uma desclassificação. Entre as finalizações conquistadas, seis aconteceram por meio de ataques ao braço, uma de suas especialidades.
Além das medalhas, o faixa-preta retornou à Espanha com um cinturão e um anel de campeão mundial absoluto, símbolos de uma campanha que ficará marcada em sua carreira.
Uma promessa ao pai transformada em título mundial
Por trás dos resultados conquistados no Japão, Cristiano carregava uma motivação muito maior do que subir ao pódio.
Em entrevista exclusiva ao Jiu-Jitsu Brasil, o professor revelou que havia prometido ao pai, falecido há aproximadamente um ano, que conquistaria um título mundial em sua homenagem.
“Eu tinha prometido para meu pai, que faleceu há um ano, que eu ia ser campeão mundial em agosto por ele”, contou.
A caminhada até o campeonato, entretanto, esteve longe de ser tranquila.
Durante a preparação, Cristiano enfrentou uma infecção intestinal acompanhada de complicações renais, problema que o levou a permanecer internado por três dias.
Segundo seu relato, a recomendação médica era de aproximadamente um mês de repouso, sem autorização para participar da competição.
Mesmo diante das dificuldades, o brasileiro decidiu manter seus planos e viajar ao Japão. Já no país asiático, ainda precisou enfrentar problemas relacionados à retenção de líquidos e ao controle de peso antes das lutas.
A conquista acabou se tornando ainda mais emocionante.
“Foi uma explosão de alegria, de festa. Eu não conseguia conter minha emoção. Tem um vídeo em que eu estou no pódio e eu não sabia se eu pulava, se eu sorria ou se eu gritava.”
Para Cristiano, aquelas medalhas representavam não apenas o resultado dos combates, mas também uma homenagem ao pai e o reconhecimento de décadas de dedicação ao esporte.
De Curitiba ao topo do pódio no Japão
A conquista mundial ganha ainda mais significado quando se conhece o início da trajetória do professor.
Natural de Curitiba, Cristiano começou a praticar Jiu-Jitsu em 1995, aos 20 anos, depois de conhecer o professor Hélio Soneca.
Na época, não possuía condições financeiras para pagar as mensalidades da academia. Foi então que recebeu uma oportunidade que mudaria sua vida: poderia frequentar os treinos em troca de realizar a limpeza do espaço uma vez por semana.
O jovem que começou limpando uma academia para aprender Jiu-Jitsu construiu uma trajetória de mais de três décadas na modalidade, tornou-se faixa-preta formado por Hélio Soneca e hoje representa a Gracie Barra em competições internacionais.
Cristiano também faz questão de reconhecer a importância de Gustavo Muggiaty, conhecido como Guti, outro professor que participou de sua formação e continua presente em sua vida.
Após os resultados no Japão, o campeão recebeu mensagens de pessoas que fizeram parte dessa caminhada. Uma delas, enviada por Hélio Soneca, teve um significado especial.
“O Soneca me mandou uma mensagem quando eu ganhei lá e isso me emocionou bastante”, revelou.
O professor também destacou o apoio da família, especialmente dos filhos, e dos alunos de sua academia na Espanha, que contribuíram para que continuasse participando de competições internacionais.
Aos 51 anos, experiência e determinação seguem fazendo a diferença
A campanha no Japão também demonstrou a competitividade de Cristiano diante de adversários experientes.
O faixa-preta destacou o nível técnico dos competidores e a presença de atletas com experiência no judô, fator que exigiu atenção especial durante os confrontos em pé.
Apesar da sequência de vitórias, Cristiano ressaltou o respeito pelos adversários e reconheceu o desgaste físico provocado pela quantidade de combates disputados.
Depois do Mundial, o professor passou a considerar uma redução na participação em torneios com muitas lutas no mesmo dia, mas não descarta continuar competindo, especialmente em superlutas.
Atualmente, à frente de seu trabalho na Gracie Barra Vila-Seca, na Espanha, Cristiano segue compartilhando sua experiência com novas gerações de praticantes.
Sua campanha no Japão representa mais um capítulo de uma história iniciada há mais de 30 anos, quando encontrou no Jiu-Jitsu uma oportunidade de transformar a própria vida.
Três títulos mundiais, quatro medalhas e uma promessa cumprida. Para Cristiano Neguinho, a viagem ao Japão terminou com resultados expressivos, mas o maior significado da conquista permanece ligado à memória do pai, ao apoio da família e às pessoas que o acompanharam ao longo de sua trajetória.
Como ele próprio resumiu durante a entrevista ao Jiu-Jitsu Brasil:
“Jiu-Jitsu, para mim, não existe uma vida sem Jiu-Jitsu.”
Sobre o autor
Matéria escrita por Diego Alves de Andrade, fundador da Jiu-Jitsu Brasil, portal independente especializado na cobertura do Jiu-Jitsu brasileiro e internacional.
Com mais de 13 anos de atuação no universo da arte suave, a Jiu-Jitsu Brasil dedica-se à cobertura de campeonatos, à valorização de atletas, professores e equipes e à preservação das histórias que fazem parte do desenvolvimento do esporte.
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