Aos 51 anos, faixa-preta formado por Hélio Soneca e representante da Gracie Barra na Espanha, Cristiano Neguinho vive uma temporada de conquistas internacionais. Sua história começou em Curitiba, quando trocava a limpeza de uma academia pela oportunidade de aprender jiu-jitsu.
O ano de 2026 ficará marcado na trajetória de Luis Cristiano Ribas da Motta, conhecido no mundo das artes marciais como Cristiano Neguinho. Natural de Curitiba, no Paraná, o professor de 51 anos, atualmente radicado na Espanha, voltou a demonstrar que a experiência, a disciplina e a determinação continuam sendo armas poderosas dentro dos tatames.
Representando a Gracie Barra, equipe que defende desde o início de sua caminhada no jiu-jitsu, em 1995, o faixa-preta colecionou importantes resultados internacionais nesta temporada.
Entre os destaques estão os títulos conquistados em um evento da NAGA, em Paris, na França, onde foi campeão com e sem kimono, além de trazer um cinturão para casa.
Mas foi no Japão, durante um Campeonato Mundial realizado em Tóquio, que Cristiano viveu um dos momentos mais emocionantes de sua carreira.
Em sua primeira passagem pela Terra do Sol Nascente, o brasileiro conquistou resultados expressivos nas duas modalidades.
Na modalidade NoGi (sem kimono), Cristiano sagrou-se campeão em sua categoria de peso e conquistou a medalha de bronze no absoluto, terminando na terceira colocação.
Já nas disputas com kimono (Gi), o faixa-preta teve uma campanha ainda mais expressiva, conquistando o título mundial na categoria até 88 kg e também no absoluto, garantindo duas medalhas de ouro.
Ao todo, foram dez combates disputados, com nove vitórias por finalização e uma desclassificação, segundo os números apresentados pelo próprio atleta.
Além das medalhas, Cristiano retornou à Espanha com o cinturão e o anel de campeão mundial absoluto, símbolos de uma conquista que, para ele, representa muito mais do que o resultado de uma competição.
Uma promessa ao pai e uma batalha antes mesmo de entrar no tatame
Por trás da campanha vitoriosa no Japão, existe uma história de superação que poucos conheciam.
Em entrevista exclusiva ao Jiu-Jitsu Brasil, Cristiano revelou que enfrentou problemas de saúde durante a preparação para o Mundial. Uma infecção intestinal, acompanhada de complicações renais, provocou uma internação de três dias e comprometeu sua preparação física.
O quadro foi tão delicado que, segundo o professor, a recomendação médica era de repouso por aproximadamente um mês, sem autorização para competir.
Mesmo diante das dificuldades e dos riscos, Cristiano decidiu seguir com seus planos. Havia uma motivação muito pessoal por trás daquela viagem.
Antes de falecer, seu pai havia recebido uma promessa: o filho conquistaria um título mundial em sua homenagem.
“Eu tinha prometido para meu pai, que faleceu há um ano, que eu ia ser campeão mundial em agosto por ele”, contou o professor.
A recuperação, a preparação e a chegada ao Japão se transformaram em desafios paralelos à própria competição.
Já em território japonês, Cristiano ainda precisou lidar com a retenção de líquidos e a dificuldade para atingir o peso necessário, contando com o apoio de familiares durante os últimos dias antes das lutas.
Apesar de todas as adversidades, conseguiu entrar em ação e protagonizar uma campanha que considera inesquecível.
No momento em que subiu ao lugar mais alto do pódio, toda aquela trajetória pareceu passar novamente diante de seus olhos.
“Foi uma explosão de alegria, de festa. Eu não conseguia conter minha emoção. Tem um vídeo em que eu estou no pódio e eu não sabia se eu pulava, se eu sorria ou se eu gritava.”
Para Cristiano, aquele título também carregava a memória do pai, os sacrifícios da família e todas as dificuldades enfrentadas ao longo de sua carreira.
Nove finalizações e o respeito pelos adversários
Outro ponto que chama a atenção na campanha japonesa é o desempenho técnico apresentado pelo experiente faixa-preta.
Das nove finalizações relatadas, seis foram ataques ao braço, uma das especialidades do professor.
Cristiano também destacou o alto nível dos adversários, incluindo atletas com títulos em diferentes competições internacionais.
Segundo ele, a forte presença de competidores com experiência no judô tornou os confrontos especialmente exigentes na luta em pé, obrigando-o a buscar alternativas para impor seu próprio jogo.
Apesar dos resultados expressivos, o brasileiro fez questão de demonstrar respeito aos oponentes.
Para Cristiano, um atleta que chega à faixa-preta já passou por um longo processo de desenvolvimento técnico. Por isso, acredita que o desempenho de cada competidor depende também da preparação e das circunstâncias daquele dia.
O professor ainda elogiou a estrutura do Mundial no Japão, especialmente a organização e o tratamento oferecido aos atletas.
“Todo atleta que vai lutar ali é importante para eles. Eles cuidam como se fosse um tesouro.”
Uma história que começou com uma vassoura na mão
Para compreender o tamanho das conquistas de Cristiano Neguinho, é preciso voltar a Curitiba, em 1995.
Naquela época, o jiu-jitsu ainda estava distante de oferecer as oportunidades profissionais encontradas atualmente, especialmente para quem não possuía condições financeiras.
Cristiano tinha 20 anos e trabalhava em uma boate na capital paranaense quando conheceu o professor Hélio Soneca, personagem que mudaria definitivamente o rumo de sua vida.
O interesse pelas artes marciais foi imediato, mas existia um obstáculo: ele não tinha dinheiro para pagar as mensalidades da academia.
Foi então que surgiu uma proposta que marcou o início de sua história.
Soneca permitiu que Cristiano treinasse em troca de realizar a limpeza da academia uma vez por semana.
O homem que hoje conquista títulos mundiais começou no jiu-jitsu limpando o local onde sonhava aprender a lutar.
A oportunidade foi suficiente para transformar sua vida.
Cristiano começou a treinar na academia que anteriormente levava o nome de Rilion Gracie e passou a integrar a Gracie Barra, equipe à qual permanece ligado desde então.
Sob a orientação de Hélio Soneca, construiu sua base técnica, desenvolveu sua identidade como atleta e, anos depois, recebeu das mãos do próprio professor a tão desejada faixa-preta.
Mais de três décadas se passaram, mas o vínculo permanece.
“Desde que comecei no jiu-jitsu, nunca fui de outra equipe. Sempre fui Gracie Barra, desde 95”, destacou.
Sem patrocínio, com família para sustentar e sem pensar em desistir
O início da carreira competitiva foi marcado por dificuldades que ultrapassavam os tatames.
Cristiano precisava trabalhar, sustentar a família e encontrar recursos para viajar e disputar campeonatos.
Em muitos momentos, faltava dinheiro até mesmo para a suplementação e a preparação esportiva.
As despesas com inscrições, transporte e hospedagem frequentemente impediam sua participação em competições importantes.
O professor revelou que chegou a perder oportunidades de disputar campeonatos mundiais, tanto pelas limitações financeiras quanto pelos compromissos familiares.
Naquela época, conseguir patrocínio era uma tarefa especialmente difícil.
Mas, mesmo quando as possibilidades pareciam limitadas, abandonar o esporte nunca foi uma alternativa.
“Desistir nunca foi um plano ou opção. Eu sempre busquei alguma maneira de dar essa volta por cima.”
Essa mentalidade acompanharia Cristiano nos anos seguintes, tanto nas competições quanto nas decisões pessoais.
A decisão mais difícil: deixar o Brasil e recomeçar na Europa
Depois de construir uma trajetória nas artes marciais brasileiras, incluindo experiências competitivas no judô e no MMA, Cristiano tomou uma decisão que considera uma das mais difíceis de sua vida.
Ele deixou o Brasil e partiu para a Europa.
A mudança aconteceu em um período em que, segundo o próprio professor, vivia um dos melhores momentos de sua carreira esportiva.
A decisão significava abrir mão da proximidade com os filhos, deixar amigos e professores e começar praticamente do zero em um país desconhecido.
Sem dominar o idioma e sem possuir uma rede de contatos consolidada, precisou construir uma nova vida.
A Espanha acabou se tornando sua segunda casa.
Foi ali que Cristiano deu continuidade à sua missão como professor, ampliando sua trajetória dentro da Gracie Barra e formando novas gerações de praticantes.
Hoje, além de representar a Gracie Barra em competições internacionais, ele conta com o apoio dos próprios alunos para continuar competindo.
O professor destaca que sua academia se tornou uma das principais responsáveis pela viabilização de suas viagens e de sua preparação esportiva.
Uma realidade muito diferente daquela enfrentada pelo jovem curitibano que, em 1995, não tinha dinheiro para pagar uma mensalidade.
O título mais importante não foi conquistado dentro do tatame
Embora carregue no currículo diversas conquistas esportivas, Cristiano surpreendeu ao responder qual considera o maior título de sua carreira.
Em vez de mencionar uma medalha, cinturão ou campeonato mundial, o professor destacou sua participação na construção de uma iniciativa de incentivo ao esporte em Curitiba.
Segundo seu relato, foram aproximadamente quatro anos de trabalho ao lado de Joacir Moreira e Fábio Auai no desenvolvimento de uma lei de incentivo fiscal voltada ao apoio de atletas.
Cristiano considera essa participação uma de suas maiores realizações pessoais, pois entende que a iniciativa abriu oportunidades para esportistas que enfrentavam as mesmas dificuldades financeiras que marcaram sua juventude.
Para ele, contribuir para o crescimento do esporte e ajudar outras pessoas a realizarem seus sonhos representa uma vitória que ultrapassa qualquer resultado competitivo.
“Esse é um título que ninguém vai tirar de mim.”
A declaração resume parte importante de sua filosofia: o sucesso dentro dos tatames ganha ainda mais significado quando pode transformar a vida de outras pessoas.
Gratidão a Hélio Soneca e à geração da Gracie Barra Curitiba
Ao recordar sua história, Cristiano fez questão de homenagear as pessoas que participaram de sua formação.
Entre elas, destacou Hélio Soneca, seu primeiro professor e responsável por abrir as portas do jiu-jitsu, e Guti, que também teve papel importante em seu desenvolvimento.
O campeão mundial ainda recordou diversos companheiros da antiga Gracie Barra Curitiba, com quem dividiu treinamentos, dificuldades, vitórias e experiências que contribuíram para construir sua identidade no esporte.
Nomes como Simpson, Cascão, Marcão, Pelúcio, Christian, Esqueleto, Rodrigo Fajardo, Marco Schubert, Jorge Oliveira e Piratinha apareceram entre as lembranças do professor.
Para Cristiano, aquela geração não representava apenas um grupo de atletas que treinavam juntos.
Era uma família.
O professor também se emocionou ao lembrar que, após conquistar o Mundial no Japão, recebeu uma mensagem de Hélio Soneca parabenizando-o pelo resultado.
Décadas depois daquele primeiro encontro em uma boate de Curitiba, a relação entre aluno e mestre continua presente.
Da Gracie Barra Curitiba à Gracie Barra Vila-Seca, na Espanha
Atualmente, Cristiano desenvolve seu trabalho na Gracie Barra Vila-Seca, na Espanha, onde construiu uma comunidade de alunos que considera parte de sua família.
São praticantes de diferentes idades e graduações que fazem parte da rotina do professor e também de suas conquistas.
Ele fez questão de agradecer aos faixas-brancas, azuis, graduados e faixas-pretas, além dos alunos mais experientes que compartilham com ele os treinamentos matinais.
Entre as pessoas homenageadas estão Jorge, seu primeiro faixa-preta formado na Espanha, e Soraia, sua secretária e colaboradora há mais de 17 anos.
Cristiano destaca que a convivência com os alunos é uma de suas principais fontes de motivação.
A conquista no Japão, segundo ele, também foi dedicada a todos que fazem parte de sua escola.
“Eu fui lá e ganhei também por vocês, para mostrar para vocês e fazer vocês sentirem orgulho do mestre de vocês, do mestre e amigo de vocês.”
Depois do Mundial, o que vem pela frente?
Apesar da excelente temporada, Cristiano reconhece que o corpo já não responde da mesma maneira que no início de sua carreira.
A sequência de combates disputados no Mundial do Japão exigiu um período prolongado de recuperação.
Por isso, o professor considera diminuir sua participação em torneios com diversas lutas no mesmo dia.
A possibilidade de disputar superlutas, entretanto, continua em seus planos.
Cristiano revelou que existe um possível adversário com quem gostaria de dividir o tatame, mas preferiu não divulgar o nome por enquanto.
Aos 51 anos, o desejo de competir permanece, agora acompanhado da experiência acumulada durante mais de três décadas dedicadas às artes marciais.
Muito além das medalhas: o legado de Cristiano Neguinho
A história de Cristiano Neguinho demonstra como o jiu-jitsu pode transformar destinos.
O jovem que não tinha dinheiro para pagar uma academia tornou-se faixa-preta, professor, formador de atletas e campeão internacional.
O curitibano que começou limpando o local onde treinava atravessou continentes, conheceu diferentes culturas e construiu uma vida na Europa por meio do esporte.
Em 2026, encontrou no Japão o cenário de uma das conquistas mais emocionantes de sua trajetória.
Com dois títulos mundiais com kimono, um título sem kimono e uma medalha de bronze no absoluto NoGi, Cristiano encerrou sua participação no Japão com quatro medalhas e uma história de superação que vai muito além dos resultados.
Mas, quando olha para trás, Cristiano entende que sua maior vitória não está apenas nas medalhas conquistadas, e sim nas pessoas que conheceu e nas vidas que conseguiu transformar.
Para encerrar a entrevista ao Jiu-Jitsu Brasil, o professor resumiu o significado que a arte suave possui em sua vida.
“O jiu-jitsu mudou minha vida. O jiu-jitsu me mudou, fez de mim uma pessoa que teve a oportunidade na vida de aprender um esporte e, através desse esporte, abriu as portas do mundo para mim.”
E completou com uma declaração que representa a essência de sua história:
“Jiu-jitsu, para mim, não existe uma vida sem jiu-jitsu.”
Reportagem especial: Jiu-Jitsu Brasil — Histórias que inspiram dentro e fora dos tatames.