prevenção da hipotonia, sobrepeso e transtornos de coordenação
Por LEANDRO VIEIRA
Faixa Preta 1º Grau AURUM
Advogado (FURB) e Professor de Educação Física (UNICESUMAR)
Neuroeducador pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
FIC em Educação Especial Inclusiva – FASUL
Acompanhante Terapêutico com enfoque em ABA – Flórida Tech (EUA)
Instagram e Youtube: @jiujitsucomproposito
1. Introdução
O Transtorno do Espectro Autista – TEA é comumente identificado por desafios na comunicação, interação social, comportamentos repetitivos e necessidade de suporte em alguma (ou muitas) atividades diárias.
Porém, as comorbidades associadas ao TEA vão muito além desses aspectos.
Crianças e adolescentes com TEA frequentemente enfrentam dificuldades motoras e funcionais, transtornos na coordenação, bem como um risco elevado de desenvolver sobrepeso ou obesidade.
Esses fatores podem impactar negativamente na autoestima e qualidade de vida dessas pessoas, bem como prejudicar ainda mais sua interação social.
Neste artigo, me proponho analisar duas revisões sistemáticas e meta-análises sobre o risco de obesidade para crianças com autismo (2019 e 2022), um artigo sobre a prevalência de problemas motores em autistas (2024), e um estudo realizado em 2021 com grupo de praticantes e não praticantes de jiu-jitsu (2021), demonstrando sua eficácia como ferramenta terapêutica para redução da hipotonia, prevenção da obesidade e ganhos na autonomia da vida diária.
É importante destacar que sempre que falamos em revisão sistemática e meta-análises, estamos tratando do topo da pirâmide de confiança em termos de seriedade, profundidade e credibilidade das pesquisas e estudos científicos.
2. Estudo de 2019
O primeiro artigo analisado, intitulado “The risk of overweight and obesity in children with autism spectrum disorders “ (Kahathuduwa, C. N., et al. 2019), investigou a relação entre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o risco de sobrepeso e obesidade em crianças.
Através de uma revisão sistemática e meta-análise de estudos existentes, os autores buscaram determinar se crianças com TEA apresentam um risco aumentado de desenvolver sobrepeso ou obesidade em comparação com crianças sem TEA.
E os resultados efetivamente concluíram haver uma associação significativa entre TEA e um risco aumentado de sobrepeso e obesidade em crianças.
Assim, os autores destacam a importância de monitorar e abordar o peso corporal em crianças com TEA para promover uma melhor saúde e bem-estar.
3. Estudo de 2022
Em 2022 Sammels, O., e outros publicaram estudo muito semelhante, cujo título “Autism Spectrum Disorder and Obesity in Children “, também realizou revisão sistemática e meta-análise investigando a relação entre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a obesidade infantil.
O estudo analisou dados de diversas pesquisas para determinar se crianças com TEA realmente apresentavam uma prevalência maior de obesidade em comparação com crianças sem o transtorno.
E igualmente ao estudo de 2019, os resultados também indicaram que há uma associação significativa entre TEA e obesidade em crianças, sugerindo a necessidade de atenção especial a fatores de risco e estratégias de intervenção direcionadas a essa população.
4. Estudo de 2024
Em 2024, Miller HL. e outros, publicaram artigo intitulado “Motor problems in autism: Co-occurrence or feature?” no qual discutem se as dificuldades motoras observadas em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) já não devem ser consideradas como um critério de diagnóstico do TEA, e não apenas como uma condição coexistente (comorbidade).
Segundo eles, as diretrizes atuais do DSM-5 e da CID-11 (documentos médicos sobre a saúde mundial e que contém os critérios diagnósticos do Autismo), permitem que clínicos diagnostiquem indivíduos autistas com o Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação (TDC) quando apresentam problemas motores significativos.
O TDC é caracterizado por uma proficiência motora abaixo do esperado, com início dos sintomas no início do desenvolvimento.
Segundo esses autores, estudos têm mostrado uma considerável sobreposição nas características motoras observadas no TEA e no TDC (cerca de 95% das crianças), o que poderia inclusive recomendar utilizar o TDC como critério de diagnóstico do TEA.
5. Estudo de 2021
O estudo de 2021 é nacional, produzido pelo Professor Leonardo Sprovieri Lima e outros, intitulado “Jiu-Jitsu como instrumento de tratamento para crianças com Transtorno do Espectro Autista”.
Embora contemporâneo aos seus estudos-pares, essa pesquisa está intrinsecamente revelando soluções para artigos, revisões e meta-análises antes comentadas.
O estudo, que teve como objetivo avaliar os efeitos de um programa de jiu-jitsu no desempenho motor e nas habilidades funcionais de crianças com TEA, tomou como amostragem seis crianças, com idades entre 6 e 12 anos, divididas em grupo de controle (3 alunos – que não praticaram jiu-jitsu), e grupo experimental (3 alunos – que praticaram jiu-jitsu).
Os resultados indicaram que após 80 sessões de jiu-jitsu ao longo de um ano e três meses, o grupo experimental obteve melhorias significativas no desempenho locomotor, manipulativo, autocuidado e função social, além de uma menor necessidade de ajuda dos pais ou cuidadores responsáveis para realizar tarefas diárias.
Veja-se os gráficos:






6. Conclusão
Conclui-se que a gestão do peso corporal é um aspecto relevante considerando o risco aumentado de sobrepeso e obesidade na população infantil com TEA – Transtorno do Espectro Autismo.
Os estudos analisados comprovam que jiu-jitsu pode ser um instrumento eficaz na prevenção do sobrepeso, redução da hipotonia e tratamento do TDC – Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação de crianças com TEA, contribuindo para o planejamento de intervenções e auxiliando profissionais da rede de saúde e apoio da criança, beneficiando o desenvolvimento motor e funcional, promovendo maior autonomia e habilidades sociais.
Além disso, é bom sempre lembrar que os benefícios da atividade física programada vão além do desenvolvimento físico, abrangendo também aspectos funcionais e sociais.
Incorporar atividades físicas estruturadas, como o jiu-jitsu, é sem dúvida uma estratégia eficaz para melhorar a qualidade de vida e a inclusão social efetiva da comunidade autista.
7. Referências
Lima, L. S., do Amaral, M. F., Fontes, V. A. M., Couto, C. R., Almohalha, L., & dos Santos, S. P. (2021). Jiu-Jitsu como instrumento de tratamento para crianças com Transtorno do Espectro Autista. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, 35(4), 191-202.
Miller HL, Licari MK, Bhat A, Aziz-Zadeh LS, Van Damme T, Fears NE, et al. Problemas motores no autismo: co-ocorrência ou característica? Dev Med Child Neurol. 2024; 66: 16–22.
Sammels, O., Karjalainen, L., Dahlgren, J., & Wentz, E. (2022). Autism Spectrum Disorder and Obesity in Children: A Systematic Review and Meta-Analysis. Obesity Facts, 15(3), 305-320.
Kahathuduwa, C. N., West, B. D., Blume, J., Dharavath, N., Moustaid-Moussa, N., & Mastergeorge, A. (2019). The risk of overweight and obesity in children with autism spectrum disorders: A systematic review and meta-analysis. Obesity Reviews, 20(12), 1667-1679.