Aos 9 anos, Eloah Valentina Sancho Coimbra conquistou um dos resultados mais importantes de sua trajetória no esporte. Em sua primeira participação no Campeonato Brasileiro de Jiu-Jitsu Sem Kimono da CBJJ, a jovem atleta venceu duas lutas e terminou a competição no lugar mais alto do pódio.
Representando o Maranhão, Eloah foi campeã brasileira na categoria Mirim 3, até 34,80 kg. O resultado ganhou um significado ainda maior por ter sido conquistado em uma das principais competições nacionais voltadas às crianças.
Conhecida nas redes sociais como Tina, Eloah é autista e encontrou no jiu-jitsu muito mais do que um esporte. O tatame tornou-se um espaço de interação social, desenvolvimento, aprendizado e construção de confiança.
Do desafio da socialização ao lugar mais alto do pódio
Eloah recebeu o diagnóstico de transtorno do espectro autista aos 2 anos. Sua aproximação com o jiu-jitsu aconteceu por influência do irmão, que também é autista e começou a treinar antes dela.
Os dois foram inseridos na modalidade para terem contato com um ambiente diferente daqueles que frequentavam diariamente, como a escola e as terapias. A família buscava uma atividade que pudesse estimular a convivência com outras pessoas e proporcionar novas experiências.
Eloah começou a praticar e competir no jiu-jitsu aos 5 anos. No início, a interação com outras crianças era um dos maiores desafios.
Ela preferia brincar sozinha e costumava se afastar quando percebia a aproximação de outras crianças, inclusive em parques. Também não gostava de contato físico, como abraços e beijos.
Com o passar do tempo, a menina que evitava o contato passou a amar um esporte no qual a proximidade física faz parte de praticamente todos os movimentos.
Mudanças dentro e fora da academia
A família percebeu importantes mudanças desde o início dos treinamentos. Eloah passou a interagir mais com outras crianças e apresentou avanços na concentração, na disciplina, na comunicação, na confiança e na maneira de enfrentar frustrações.
Antes, ela não suportava permanecer com uma roupa que tivesse sequer algumas gotas de água. Atualmente, treina normalmente com o kimono molhado pelo suor depois de uma rotina intensa de exercícios e lutas.
A evolução também chegou à escola. Aos 5 anos, Eloah ainda tinha dificuldades para reconhecer as vogais e até mesmo a primeira letra do próprio nome. Hoje, é elogiada por sua dedicação, gosta de estudar e também frequenta um curso de inglês.
Uma situação cotidiana mostra o quanto sua socialização avançou: a menina que anteriormente evitava outras crianças agora, algumas vezes, precisa ser chamada pela professora por conversar durante a aula.
Uma campeã focada e confiante
Eloah treina seis vezes por semana na Fight Sports Club, sob a orientação do mestre Rômulo Sousa. Dentro do tatame, é descrita pela família como uma atleta guerreira, rápida, agressiva, confiante, calma e técnica.
Apesar da pouca idade, ela já reúne experiência em importantes campeonatos estaduais, nacionais e internacionais. Também possui medalhas conquistadas em diferentes participações no Campeonato Brasileiro com kimono.
A estreia no Brasileiro Sem Kimono, entretanto, abriu um novo capítulo em sua caminhada. Depois de vencer duas lutas, Eloah garantiu o primeiro título brasileiro NoGi de sua trajetória.
Para a família, o momento mais emocionante foi vê-la superar mais um desafio, competir em um torneio de alto nível e alcançar o lugar mais alto do pódio.
Uma felicidade que nem sempre aparece
Uma das características de Eloah é não demonstrar externamente todas as suas emoções. Embora desejasse muito conquistar o título, sua reação após a vitória não revelou o tamanho da felicidade que estava sentindo.
A família, porém, sabia exatamente o que aquele resultado representava.
A medalha de ouro reuniu anos de treinamento, dedicação e desafios enfrentados desde o começo de sua caminhada. Para Eloah, seus familiares, seu professor e sua equipe, a conquista representa superação, foco, esforço e vontade.
O resultado também reforça uma mensagem importante: crianças autistas podem encontrar no esporte um ambiente capaz de contribuir significativamente com seu desenvolvimento, respeitando suas características e seu próprio tempo.
Novos sonhos no jiu-jitsu
Depois da conquista nacional, Eloah já se prepara para os próximos desafios. Seu calendário inclui campeonatos no Maranhão e competições em outros estados, mantendo uma rotina esportiva construída desde os 5 anos.
Sua trajetória conta com o apoio da Edeconsil, JBN Suprimentos LTDA e Hostel Coimbra.
O maior sonho da jovem atleta é chegar à faixa-preta, tornar-se campeã mundial e, no futuro, ser professora de jiu-jitsu.
Aos 9 anos, Eloah ainda está no início dessa caminhada, mas já possui uma história capaz de inspirar outras crianças e famílias. Sua conquista mostra que o esporte pode ser uma importante ferramenta de inclusão, desenvolvimento e transformação.
Eloah Valentina é autista, atleta e campeã brasileira. No tatame, encontrou um espaço para evoluir, fazer amigos, enfrentar desafios e acreditar que seus maiores sonhos também podem ser alcançados.




