No Jiu-Jitsu, poucas histórias carregam tanto significado quanto os gestos silenciosos dos grandes mestres. Um desses momentos simbólicos aconteceu quando o Flávio Behring, após mais de sete décadas dedicadas à arte suave, tomou uma decisão que atravessou gerações e provocou reflexões profundas dentro e fora do tatame.
Ao receber a graduação máxima do Jiu-Jitsu — o 9º grau, tradicionalmente representado pela faixa vermelha, o Grande Mestre optou por utilizar a faixa branca. O gesto, longe de representar um retrocesso, tornou-se uma poderosa mensagem sobre humildade, essência e aprendizado contínuo.
Mais de 70 anos vivendo o Jiu-Jitsu
Flávio Behring é uma das figuras mais respeitadas da história do Jiu-Jitsu. Discípulo direto de Hélio Gracie, ele dedicou sua vida não apenas à prática da arte suave, mas também à preservação de seus valores mais profundos. Foram décadas ensinando, formando alunos, difundindo conhecimento e defendendo uma visão filosófica do Jiu-Jitsu como caminho de vida — e não apenas como esporte ou sistema de graduação.
Ao longo de sua trajetória, Behring sempre reforçou que a verdadeira evolução no Jiu-Jitsu vai além das cores de faixa, títulos ou reconhecimento público.
O significado da faixa branca no mais alto grau
A escolha pela faixa branca no momento da graduação máxima foi simbólica. Em declarações à época, o mestre explicou que o gesto representava o retorno à origem, ao ponto inicial do aprendizado. Para ele, quanto mais se avança no caminho do Jiu-Jitsu, maior deve ser a consciência de que sempre há algo novo a aprender.
No Jiu-Jitsu tradicional, a faixa branca simboliza abertura, humildade e disposição para absorver conhecimento. Ao adotá-la após alcançar o 9º grau, Flávio Behring reforçou uma ideia central da arte suave: o aprendizado nunca termina.
Um gesto que virou referência filosófica
O ato do Grande Mestre repercutiu fortemente no meio do Jiu-Jitsu, sendo citado por professores, praticantes e estudiosos da arte marcial ao redor do mundo. Mais do que uma curiosidade histórica, a decisão se transformou em um símbolo de maturidade, mostrando que o verdadeiro mestre não é aquele que se apega à hierarquia, mas aquele que compreende profundamente o caminho.
Em tempos em que o Jiu-Jitsu cresce como esporte profissional, o gesto de Flávio Behring serve como lembrete de que a essência da arte suave está na formação do caráter, na disciplina e no respeito ao processo.
Legado eterno
Ao optar pela faixa branca após uma vida inteira no tatame, Flávio Behring deixou uma lição que transcende gerações: ser mestre é nunca deixar de ser aluno. Seu legado permanece vivo não apenas nas técnicas que ensinou, mas principalmente na forma como enxergou o Jiu-Jitsu — como um caminho de evolução constante, dentro e fora do tatame.
Sobre o autor
Diego Alves de Andrade é faixa roxa de Jiu-Jitsu, comunicador e fundador da JIU-JITSU BRASIL, projeto criado em 2013 e que se tornou uma das maiores plataformas de mídia dedicadas ao Jiu-Jitsu no país. Atua há mais de uma década registrando histórias, atletas, mestres e eventos da arte suave, com foco na preservação da memória, dos valores tradicionais e da cultura do Jiu-Jitsu.